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M A G i s

MAGIS: O mais, maior, mais alto, mais profundo. O que sou e o que posso vir a ser. O que me falta, o que me eleva e acrescenta. O sentido positivo de tudo o que me acontece. O que mais me aproxima da vida verdadeira. MAG is...

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MAGIS: O mais, maior, mais alto, mais profundo. O que sou e o que posso vir a ser. O que me falta, o que me eleva e acrescenta. O sentido positivo de tudo o que me acontece. O que mais me aproxima da vida verdadeira. MAG is...

11.08.20

A vida sobre rodas


MAG

Há coisas que aparentemente acontecem por acaso e que, de repente, nos trazem muito do que precisamos no momento.

Inesperadamente dou por mim, de novo, em cima de uma mota. Não falo da minha acelera, a minha querida PXR que era quase minha siamesa, quando eu ainda não tinha medo das coisas de gente crescida. Falo de uma mota a sério, do som inconfundível do seu motor e da força capaz de rasgar o ar em segundos. De muitos quilómetros, muitas horas e muito boa companhia. Falo da paisagem que nos passa ao lado, da vida posta a rolar como um filme, da capacidade criativa a que o inevitável desapego material nos convida. Falo também no exercício de confiança absoluta em alguém que não sou eu, e que me leva sempre a um sítio melhor. E de uma forma diferente de observar, mais perto do chão, mais parte de tudo. São muitas metáforas em cima de duas rodas. 

Gosto de sentir de novo o indizível dos cheiros, dos sons e das temperaturas que o vento traz. Gosto de voltar a mim pequenina, na estrada empedrada que ligava Évora a Reguengos, o barulho das rodas do carro e o cheiro a eucalipto e a azinho a entrar pelas janelas.

- Estamos quase.

E de me rever na chegada a Vale de Gaios, ao monte dos meus tios, o lugar dos dias infindáveis, os primos todos, perdidos no campo com uma melancia debaixo do braço.

- Voltem ao pôr-do-sol.

O cheiro a terra, a lenha queimada, a pão quente, que sinto agora no calor colado à pele ou no frio a entrar pelos ossos dentro, com tempero de alecrim.

Gosto de voltar a casa, de ir buscar lá atrás o conforto de coisas que já passaram há muito tempo e, por momentos, tornar a sentir essa mesma alegria cansada de voltar ao pôr-do-sol. 

Gosto de nos sentir desprotegidos e sozinhos, cúmplices a descobrir coisas bonitas em caminhos imperfeitos. Sem ar condicionado, sem música, sem conversa, sem telefone para saber as novidades sempre iguais. Gosto do silêncio que se instala, dos gestos que dizem tudo, das conversas sem palavras. Gosto das divagações, da permeabilidade aos estímulos naturais, de me perder em considerações que não interessam a ninguém, talvez nem a mim se estivesse com os pés em terra.

O que é este calor agora? Que bicho é este que espreita na berma? Maior do que um coelho e mais pequeno do que uma ovelha. Deve ser um saca-rabos. Ou não, sei lá eu. Tão inculta nestas coisas. Já cheira a mar, que bom... outra vez em casa. Depois daquela curva, vai aparecer de frente o manto azul. "E viu-se a terra inteira, de repente, surgir, redonda, do azul profundo. Quem te sagrou criou-te português. Do mar e nós em ti nos deu sinal. Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal!". Grande Pessoa, estamos na mesma. Mas Portugal continua lindo. Isto são uvas de mesa. Tudo impecável, que giro. Há muito mais olivais do que antes. E mais amendoais. Olha tudo verde... o alcance do Alqueva é impressionante. Ahhh, não há palavras, um casal de velhotes a pescar numa ribeira, os dois escondidos debaixo de chapéus de palha e do sol da tarde plena. Não sei se comia aquele peixe. Não sejas nojentinha, claro que comias. E se fossem enguias? Enguias não comia. Também nunca comi a lampreia de Entre-os-Rios e diziam que era imperdível. Pois eu perco-a para os que quiserem. Havemos de ir lá de mota qualquer dia. Tenho saudades do Norte e da minha gente de lá. E do Tâmega, e dos trolhas que espreitam a piscina aos Domingos, e do vinho verde à pressão. E do avô, que me levou lá pela primeira vez.

Gosto de não ter nada para fazer, além de dançar ao ritmo das curvas e de esticar o pescoço até às nuvens, nas rectas a tender para o infinito.

Gosto de gostarmos de evitar auto-estradas, que de mota não têm graça nenhuma. Não têm graça nenhuma de maneira nenhuma, aliás. As auto-estradas fizeram-se para ganhar tempo. Mas, ao contrário, fazem-nos perder o tempo precioso da viagem e da atenção ao que não se pode ver a grande velocidade. Gosto de fazer o caminho inteiro e não apenas de unir dois pontinhos no mapa, com duplo traço contínuo para ninguém se desviar. Gosto de desvios. E de estradas municipais. E de atalhos que não vêm nos mapas.

Gosto de parar em terras onde há vidas que se fazem entre o trabalho, a casa e a soleira da porta. De dia, em conversas de 2 ou 3. À noite, 2 ou 3 cadeiras desertas, à espera de amanhã. Gosto de atravessar esta ternura das conversas simples, de quem tem o tempo todo a perder:

- Eu tenho um irmão que também é motard.

- Ai sim? Que bom!

Que também é motard. E eu de repente nas concentrações em Faro com um kit preto integral, em pleno Agosto. Tudo o que me dava, até agora, aquela sensação de vergonha alheia. Mas afinal, o irmão é que sabe. Embora eu continue a dispensar o preto integral, pelo menos até que os casacos de Verão se gastem inteiros em tantas estradas, o irmão é que sabe.

- Não querem comer nada?

- Obrigada, jantámos no caminho.

- Boa viagem. Vão com cuidado. 

Parece sempre um Vão com Deus. E sei que vamos. 

Gosto de ouvir, no escuro, o coaxar das rãs ou dos sapos (não faço ideia, que a mota não me tornou bióloga por milagre). Gosto de andar muito devagar, quando entramos na casa dos animais que passeiam quando o mundo pára. Gosto das luzes a iluminarem troços das copas das árvores, searas e pedras. E eu a tirar fotografias visuais e a pensar como gostava de as poder guardar. Ou talvez não. Gosto de sermos muito pouco, no meio da noite.

E as estrelas? Adoro a imensidão de estrelas sobre nós. A declaração mais bonita da nossa pequenez, a maior prova de que tudo passa menos o céu.

- Esquece tudo. Olha para cima e deixa-te maravilhar. 

E eu obedeço.

IMG_0535.jpg

Photo by MAG

 

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