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M A G i s

MAGIS: O mais, maior, mais alto, mais profundo. O que sou e o que posso vir a ser. O que me falta, o que me eleva e acrescenta. O sentido positivo de tudo o que me acontece. O que mais me aproxima da vida verdadeira. MAG is...

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MAGIS: O mais, maior, mais alto, mais profundo. O que sou e o que posso vir a ser. O que me falta, o que me eleva e acrescenta. O sentido positivo de tudo o que me acontece. O que mais me aproxima da vida verdadeira. MAG is...

21.07.20

As coisas que as janelas nos mostram


MAG

A Arquitectura funciona muitas vezes, para mim, como metáfora da vida. Passo muito tempo em obras, e nem sempre o desenvolvimento dos trabalhos traz grandes novidades. Há frentes de trabalho longas, trabalhos demorados e pacientes, fases em que parece que nada avança, mas a importância dessas fases só se avalia no fim, quando o todo começa a fazer sentido e a falar como um só. Nos dias em que não existem decisões para tomar e problemas para resolver, o olhar pode demorar-se onde é chamado, e daí resultam por vezes surpresas que fazem pensar.

Foi o caso hoje, na primeira obra onde estive. Já foram retiradas as caixilharias que serão substituídas  e andam a preparar os vãos para receber as novas janelas. Por algum tempo, os vãos apresentam-se puros e despidos dos filtros dos caixilhos e dos vidros, trazendo à memória a sua função primeira, de ligar visualmente o interior e o exterior. Nem sempre o posicionamento dos vãos radica na escolha da vista que se quer eleger, e não há nenhum mal nessa não intenção. O acaso e a surpresa também têm lugar na Arquitectura e, muitas vezes, o que foge ao nosso controlo acrescenta uma inesperada beleza e um dinamismo desconcertante ao que julgámos ter planeado tão rigorosamente. Por isso costumo dizer que, uma vez construídas, as obras deixam de nos pertencer. Por isso penso que deve existir um exercício de aceitação da apropriação que os outros fazem daquilo que nós, arquitectos, projectámos. Por muito que nos possa custar a vivência livre dos espaços que criamos, é ela que dá sentido ao que fazemos. Projectamos para os outros, não para guardar intactas no portefólio as intenções que tínhamos quando a filha ainda estava em branco. Se o outro quer por um vasinho ridículo no grande pátio que sonhámos inundado de pureza e de luz, é porque é o vasinho ridículo que ele sente que lhe faz falta ali. Não somos pedras e os nossos espaços não são museus. O tempo, o gosto, a personalidade, o humor, a necessidade e o filtro de cada um são os temperos que faltam nas obras recém-terminadas. Só depois de vividas, começam verdadeiramente a viver.

Hoje, andava eu pela obra e fui parada pela sequência de imagens que os vãos despidos me devolviam. Imagens inesperadas, bocados emoldurados de paisagem e dinamismo, fragmentos do mundo tal como ele é, sem querer que seja perfeito. E dei por mim a pensar que ali estava uma metáfora da nossa vida. De como o ver de dentro para fora pode mudar a nossa perspectiva. E de como por vezes é necessário fazer silêncio interior, é necessário ficar no escuro, para ver com mais clareza e com mais beleza o que se passa no mundo à nossa volta, na nossa vida, nos que nos rodeiam, no que nos acontece. Também como é necessário saber calar para poder ouvir. Ficar na sombra, anularmos o nosso ruído para deixar que os outros se mostrem sem filtros ou intenções. Alguns, paisagens harmoniosas, outros, nuvens em movimento, edifícios em construção. O exercício de ser vão devolve-nos sempre qualquer coisa que vale a pena conhecer. E é bom treinar esta atenção, esta curiosidade, esta inquietação de não deixarmos fugir tudo o que a vida tem para nos mostrar. 

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Photos by MAG