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M A G i s

MAGIS: O mais, maior, mais alto, mais profundo. O que sou e o que posso vir a ser. O que me falta, o que me eleva e acrescenta. O sentido positivo de tudo o que me acontece. O que mais me aproxima da vida verdadeira. MAG is...

M A G i s

MAGIS: O mais, maior, mais alto, mais profundo. O que sou e o que posso vir a ser. O que me falta, o que me eleva e acrescenta. O sentido positivo de tudo o que me acontece. O que mais me aproxima da vida verdadeira. MAG is...

18.03.20

Coronavirus e o seu séquito de viroses. Ou, simplesmente, a regra dos três S.


MAG

Estamos preocupados, muito preocupados. Temos os problemas principais - o vírus, o colapso do Sistema Nacional de Saúde, as mortes - e temos os grandes problemas associados - a incerteza sobre o nosso futuro, enquanto país, a sobrevivência das empresas, a continuidade dos trabalhos, a incapacidade expectável da nossa Segurança Social para dar resposta ao que aí vem.

Temos também as adaptações que nunca julgámos ter de fazer: de repente, lavamos as mãos 357 vezes por dia (facto novo, excepto para os milhares de ultra-higiénicos que garantem que já o faziam), andamos com o gel desinfectante atrás, usamos máscaras, usamos luvas, começamos a perceber os milhões de superficies em que, antes, tocávamos sem saber, tornamo-nos paranóicos com os contactos e as goticulas, pedem-nos para nos protegermos em casa se pudermos, o que puder ser, para uns tudo, para outros meio, para uns tantos nada, é a vida, é assim, tem de ser, seja o que for. Preparamos computadores, montamos escritórios nas salas, adaptamos rotinas, reinventamos cadeias e formas de trabalho, ficamos separados das famílias, não largamos os telefones, reforçamos a despensa, fazemos video chamadas, batemos palmas à janela, cantamos nas varandas, choramos com as imagens e com os números que nos entram pela casa a dentro, temos medo, temos esperança, temos saudades de nós.

Connosco, os nossos. Para muitos, felizmente, afortunadamente!, os filhos. Os filhos mandados para casa, meio perdidos no propósito destas "férias do corona". Os filhos que temos a sorte - desta vez - de não correrem grandes perigos, os filhos a quem temos de explicar que têm de colaborar nesta missão de não por em risco os mais frágeis, os filhos que deixam de passar o dia rodeados de amigos. Os filhos a quem é arrancada, repentinamente, a liberdade - como a muitos de nós - mas que, ao contrário de muitos de nós, não têm ainda madura a consciência cívica, a paciência, a capacidade de por em perspectiva a estratégia, o sacrifício, o sentido. Os filhos que têm de perceber que continuamos a ter de trabalhar, fora de casa, dentro de casa, as duas coisas. Que têm de se calar e de parar de correr e, e, e... os filhos que nos primeiros dias têm fome, têm sede, têm uma festa mesmo importante, têm sono todo o dia, têm fartura de quatro paredes, têm vontade de comer o chocolate que não existe em casa, têm pouca rede, têm de ir só ali num instante e não podem. Os filhos que têm de aprender em pouco tempo, e sem condescendência, que não há instante que valha a vida de uma só pessoa.

Os filhos que precisam, como todos nós, ou mais do que todos nós, de tempo. TEMPO. Tempo para aterrar. Para compreender. Para, devagarinho, começarem a associar os números a pessoas que sofrem. Para, aos poucos, serem capazes de sentir empatia. Para irem percebendo, dia após dia, medida após medida, que fazem parte de um esforço comum, de uma cadeia gigante de pessoas que se querem salvar umas às outras. Esta é das coisas mais bonitas que a desgraça lhes pode mostrar. A eles, e a nós.

Já li muitas vozes que defendem que esta calamidade nos vai mudar. Que temos agora uma oportunidade para nos repensarmos, e às vidas que levámos até aqui, às relações que privilegiámos, às prioridades que definimos. Que tudo tem um propósito construtivo. Que vamos descobrir qual é, neste grande, neste enorme tempo em que nos pedem que, vigilantes, esperemos. E eu quero - como quero! - acreditar que sim, que é isso mesmo.

Este tempo, como o tempo a sério, é feito de dias, horas, minutos, segundos. Muitas vezes vazios de um objectivo concreto. Aparentemente despovoados, mas talvez mais habitados do que nunca. É nesse vazio, nesses muitos vazios, que a transformação vai acontecendo em nós. E os nossos filhos, as crianças, os adolescentes, os pré-adultos, têm DIREITO a esse tempo, também. Só assim conseguirão perceber. Só assim conseguirão arrumar o seu lugar na nova casa, na nova vida, no equilíbrio entre as velhas obrigações e a nova liberdade, que também eles terão de reinventar.

Ninguém me explicou como fazer. Não li dicas, não quis saber. Nos primeiros dias entrei em serviços mínimos: trabalhar, alimentar as crianças, manter a casa minimamente arrumada e limpa, ver as notícias, cancelar planos, esperar. Nessa dinâmica muito prática e pragmática, couberam conversas sem agenda. Couberam perguntas na cozinha, respostas de quarto para quarto, explicações rápidas, chamadas para ouvirem ou verem qualquer coisa importante, pouco mais. Sem perceber, fui transmitindo repetidamente três ideias estruturantes: Saúde, Serenidade e Sanidade Mental. Três S. Estes são os S que me interessa que assimilem. Tudo o resto é acessório.

Neste micro-mundo nosso, as poucas regras que existem contribuem para uma destas coisas. Não podem sair de casa. Não vale a pena (nunca valeu) sofrer dos nervos. Não quero fantasmas de pijama o dia inteiro, nem roupas que não usassem antes para sair. Banhos tomados, bonitinhos e perfumados. Jantamos juntos. Almoçamos como queremos. Bebemos sumo de laranja natural. É aconselhavel apanhar sol no jardim. Seria bom não engordarmos 300 kg. Jogar à bola, correr na passadeira, fazer ginástica, é aplaudido, nem que seja à meia-noite. Rezar ajuda, acalma, dá colo. Perguntar a Deus, pedir, agradecer. Eu trato de muitas coisas. Eles ajudam em algumas delas. Há livre circulação de pessoas e bens. Brinquedos descem, computadores sobem, escapa uma bolacha para a sala, se o vírus se matasse com migalhas, venderíamos vacinas ao mundo inteiro. É permitido falar alto, é permitido rir à gargalhada, é permitido ouvir música, é permitido dançar! É permitido (a mim) dar um grito para recuperar a ordem perdida. Se estou a trabalhar em casa, respeitinho se faz favor, que os bolinhos de chocolate não aparecem sozinhos na caixa do pão. Mas também é permitido, e aconselhável, estar sozinho. É bom poder ficar no quarto quando nos apetece. É óptimo falar com os amigos ao telefone e vê-los todos juntos no Whatsapp. E saber da família, e contar como estão. É sempre maravilhoso ler. Quando se gosta. Há quem goste mais e quem goste menos. Tranquilo. É bom dormir uma sesta. Também é bom ir estudando. Quando quiserem, quando acharem que sim. Para quase todas as coisas, isto. 

Agradeço não ter colégios e escolas a exigirem de forma paranóica trabalhos, aulas online, objectivos, programas, videoconferências... e acompanhamento permanente. ATENÇÃO: não somos professores e as nossas casas não são só escolas, agora! Há pais que não sabem ainda como vão pagar as contas nos próximos meses. Há pais que não estão em casa. Há pais que trabalham em casa. Eu, por exemplo, parece que sou arquitecta e que o vírus não me levou ainda a profissão! Agradeço também não ter qualquer vontade de seguir à risca os conselhos da Margarida Pinto Correia na televisão. Coitada, a intenção é boa, é para ajudar. Mas Deus nos livre e guarde de mais obrigações agora (inexplicavelmente, até nos ambientes mais sacros a tendência é querer preencher todos os intervalos). Como podemos querer que fiquem tranquilos se na primeira semana os enchemos, a eles e a nós, de stress? Não! Não quero pressionar os professores e exigir que façam imediatamente não sei o quê, não quero que visitem museus cibernáuticos, não faço questão que joguem jogos de tabuleiro que nunca jogaram, não vou exigir que aprendam crochet ou bricolage ou qualquer coisa com alguma utilidade, não quero de maneira nenhuma que sigam horários militares, não quero que se preocupem, para já, tão pouco tempo passado desde que entraram nesta montanha russa, com os exames, as notas do terceiro período, o que alguém disse que deviam fazer. Não quero sequer que aproveitem o tempo, com essa obsessão de produtividade e com esse sentido de urgência que acabámos de perceber que são apenas construções nossas, frágeis, doentias e inutéis. Não controlamos nada! Se continuarmos a insistir nisso, perdemos a grande oportunidade que o momento nos está a dar. E para quê, alguém me explica com argumentos actuais? Não, não quero que façam, façam e façam! Quero que VIVAM. Agora, assim. Quero que descubram como pode ser bom. Quero que procurem, como todos nós, o sentido construtivo que estará no horizonte. Que experimentem, que aprendam, que avaliem, que façam o caminho deles, sem pressões. Que se organizem, o que acaba por acontecer. Que estejam bem! 

Assim, os meus três S têm vindo a instalar-se. Tranquilamente, muito tranquilamente. Eu estou preocupada, muito preocupada. Com os meus mais frágeis que estão longe, com o meu trabalho, com as obras, com a economia, com as empresas, com o país, com a Europa, com o mundo. Mas nós, este mini-grupo que se instalou numa casa que nos parece um palácio, com uma sala que agora até tem uma camilha e amanhã terá uma braseira, nós estamos leves, estamos confortáveis, estamos confiantes. Por enquanto saudáveis, serenos e mentalmente sãos. Sem grandes questões. Sem grandes planos, sem grandes objectivos, sem grandes teorias. E, sobretudo, sem mais problemas que precisemos de inventar para sobreviver. Um dia de cada vez. Temos tempo. Temos de passar por isto. Não compliquemos. Vai ficar tudo bem.

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Photo by MAG

 

 

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