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M A G i s

MAGIS: O mais, maior, mais alto, mais profundo. O que sou e o que posso vir a ser. O que me falta, o que me eleva e acrescenta. O sentido positivo de tudo o que me acontece. O que mais me aproxima da vida verdadeira. MAG is...

M A G i s

MAGIS: O mais, maior, mais alto, mais profundo. O que sou e o que posso vir a ser. O que me falta, o que me eleva e acrescenta. O sentido positivo de tudo o que me acontece. O que mais me aproxima da vida verdadeira. MAG is...

27.11.19

E a Al-Qaeda aqui tão perto


MAG

Uma criança sofre com mensagens de um amigo sobre os seus pais: coisas que o amigo terá ouvido em casa e repete continuamente ao filho dos visados;

Uma miúda de 19 anos enfrenta a má língua pública de um ser que ganha a vida a criticar e a espalhar boatos;

Uma velha, por trás de um balcão de uma pastelaria cheia, comenta com um à vontade constrangedor e com os pormenores que se lembra de acrescentar ou inventar, a vida das pessoas que vivem nas redondezas, a quem serve diariamente cafés e bolinhos doces, azedados por uma hipócrita simpatia;

Um homem tem de explicar ao mundo que não, não tem duas famílias ao mesmo tempo;

Uma mulher dá por si a defender-se de uma calúnia sobre um vicio que alegadamente tem, e na verdade não tem.

*  *  *

Estes cinco episódios, infelizmente reais como tantos milhões de outros, têm em comum algumas coisas:

São desencadeados por pessoas sem vida, ou com uma vida tão desinteressante e vazia, que precisa de ser alimentada por vidas alheias. As pessoas que desencadeiam estes processos são, na verdade, dignas de pena. Muito mais dignas de pena do que quem pede uma moeda na rua. Estas pessoas mendigam um minuto de atenção do mundo. Mendigam o sentimento de se sentirem poderosas pelo menos uma vez na vida. Mendigam o interesse de alguém que os queira ouvir. Mendigam tudo aquilo que não são, e possivelmente nunca vão conseguir ser, por mérito próprio.

São espalhados, alterados e aumentados por pessoas viciadas em sangue, em tragédia. Os mesmos que param junto aos desastres de carro para perceber se há alguém sem cabeça, os mesmos que interrompem o trânsito pelo prazer de testemunhar a desgraça alheia. Estas pessoas também aspiram a interromper o trânsito: o trânsito fluido e natural da vida, que acaba por pôr tudo no devido lugar, com tempo se a deixarem, e com doses de inteligência superior, se não lhe facilitarem a tarefa. Felizmente, inteligência é uma cena que não assiste a estes parasitas sociais.

O Papa Francisco diz que "Os coscuvilheiros são pessoas que matam os outros, porque a língua mata, é como uma faca, tenham cuidado. As pessoas coscuvilheiras são terroristas, atiram a bomba aos outros e vão-se embora”. É uma boa analogia, embora eu ache que estas pessoas não matam. Podem moer, mas não matam. Não matam pela simples razão de que a vida das pessoas normais é muito mais do que aquilo que alguém se lembra de dizer sobre ela. Desde logo, porque se há matéria, aquilo que se lembram de dizer pode (imagine-se!) já ter sido dito pelas próprias a quem interessa. E quando não há matéria, aplica-se o velho princípio: o que não tem remédio, remediado está. Em qualquer dos casos, a vida das pessoas normais – poderia dizer, em vez disso: a vida das pessoas com vida - está alicerçada em pilares que os parasitas desconhecem.

Há vida para além do que se diz ou se insinua. Aliás, a vida é mesmo o que está para além disso, o que se passa e vive nos espaços onde ninguém pode entrar sem ser convidado. Nas guest lists que dão acesso ao espaço de cada um, só está quem cada um escolhe deixar entrar. Não há cunhas, pulseirinhas ou bajulações que ajudem. Nos espaços desta gente, deve dar-se a ironia de ninguém querer entrar, nem sendo convidado. Daí o vazio. Percebe-se que é chato abrir as portas e não haver filas a dar a volta ao quarteirão. Podemos rezar juntos para esta situação melhorar. Podem também convidar-se uns aos outros e fazer um bar aberto de copos vazios, que tem sempre muita graça.

Muitos devem perguntar-se agora: o que é que isto tem a ver comigo? Tem tudo. Tem a ver contigo, tem a ver comigo, tem a ver com toda a gente. Mesmo que não os crie, toda a gente tem obrigação de estar atenta a estes fenómenos e à forma como os acolhe, apoia, espalha, aumenta, interpreta. Todos nós, porque somos humanos, somos potenciais terroristas. Mas daí até lançarmos a bomba, há um tempo que corre e que nos pode servir para pensar no sentido de uma vida focada no exterior, provavelmente para fugir do interior. Isso alimenta, preenche? Em que é que isso muda a nossa própria vida, em que é que a torna mais interessante, mais válida, mais feliz? O terrorismo traz algum tipo de verdadeira felicidade a alguém? Ajuda alguém? Que marcas deixa esse tipo de atitude no mundo? É preciso termos coragem para fazer estas perguntas, e humildade para percebermos que podemos cair nisto, mesmo quando achamos que não é desta matéria que somos feitos. As fronteiras entre o bem e o mal podem ser assustadoramente suaves. A inteligência ajuda a discernir o papel que temos nestes processos. O treino ajuda. Um coração de boa saúde ajuda. Tudo pode ajudar, se não quisermos ir por aí.


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Photo by sanja gjenero from FREEIMAGES