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M A G i s

MAGIS: O mais, maior, mais alto, mais profundo. O que sou e o que posso vir a ser. O que me falta, o que me eleva e acrescenta. O sentido positivo de tudo o que me acontece. O que mais me aproxima da vida verdadeira. MAG is...

M A G i s

MAGIS: O mais, maior, mais alto, mais profundo. O que sou e o que posso vir a ser. O que me falta, o que me eleva e acrescenta. O sentido positivo de tudo o que me acontece. O que mais me aproxima da vida verdadeira. MAG is...

06.07.20

É preciso acabar com essa tristeza


MAG

E, de repente, quase três meses depois do último post, voltou a vontade de escrever. 

Trabalhei todo o dia (pela primeira vez sem qualquer percentagem de teletrabalho). Fui ao ginásio ao fim da tarde, passei por um jardim e saboreei o típico calor alentejano, o canto dos pássaros e uma conversa sem pressa, daquelas conversas boas, em que um diz uma coisa e o outro ouve exactamente a coisa que foi dita, e não outra coisa qualquer, o que às vezes parece raro. E depois vim para casa. Estou sozinha. Mais do que alguma vez em muitos meses. A casa está fresca, calma e arrumada. Tenho na pele o sol da última semana na praia, nas pontas dos dedos as mãos dadas, os mergulhos e os abraços, e no ar a Carta ao Tom 74, na voz tranquilizante de Vinicius.

Lembra que tempo feliz, ai que saudade,
Ipanema era só Felicidade
era como se o amor doesse em paz.

Rodo o filme para trás, e depois ainda mais para trás, até ser pequenina, até ouvir tocar esta música em casa, até tudo ser fácil e simples e bom. Tenho saudades, sim. Dos que já não estão e dos que estão menos, agora. Tenho saudades dos meus avós e dos meus pais, longe cada um à sua maneira. Mas quando me lembro do Passado, nunca é um querer voltar exactamente ao que era. É mais um reviver das sensações que me levavam ao colo e me apertavam num peito seguro e pleno de futuro. É mais um exercício de misturar toda a gente, os de antes e os de agora, os que agora me fazem tão feliz como os de antes, aqueles a quem agora quero tanto como aos de antes, e os que permaneceram e vão segurando um fio comum, cheio de histórias e risos, amizades e laços de sangue. Tão cheia de tantas coisas, não posso senão repetir o que digo sozinha quando faço um zoom out do que tenho passado: a vida é mesmo boa, caramba! 

As beatices por onde ando têm-me trazido muitas coisas. A melhor delas é, sem dúvida, ter conhecido um Jesus humano, que desceu dos céus e anda diariamente pelos meus caminhos a provocar-me. Com um imenso sentido de humor, que me apanha invariavelmente quando me deixo levar pela carneirada amorfa e cinzenta dos tristes, azarados, vítimas do mundo, dos outros, e nunca de si mesmos. Este Jesus vivo, ressuscitado, paciente, atento e provocador, ensinou-me que a única diferença entre a minha infância, fácil, simples e boa, e a minha idade adulta, é a facilidade que deixou de existir. A minha vida não é fácil. Nenhuma vida adulta é fácil. A minha não é extraordinariamente difícil, cada vez mais tenho consciência disso. Mas debato-me todos os dias com problemas, alguns deles graves, que não sei como resolver ou - pior - nem sei onde encaixar. As dificuldades existem, estão lá, e eu sempre a tropeçar nelas. Coisinhas chatas que me cansam, coisonas gigantes que me deixam lavada em lágrimas por não as compreender, coisas, coisas, coisas. E têm uma capacidade assustadora de preencher tudo, de deturpar tudo, de me roubar o tempo em que devia estar, simplesmente, a viver.

Nossa famosa garota nem sabia
a que ponto a cidade turvaria
este Rio de amor que se perdeu.

Simplesmente. Simplesmente. Simplesmente. É isto que Jesus me vem dizer quando lhe peço ajuda: simplesmente, vive! Chegar a este simplesmente obriga-nos a fazer um caminho, que tem de ser recomeçado tantas vezes quantas forem precisas para limpar ou para arrumar. Para resolver ou para aceitar. Para perceber o que sentimos, porque é ai que está a raiz. De onde nos vêm os medos, de onde nos vêm alguns maus sentimentos, de onde nos vem a complicação, a complexidade, a angústia, o cansaço. Frequentemente vêm do excesso de informação, de tudo o que achamos que devemos saber, ouvir, ler, ver e conhecer. Muito frequentemente vêm da nossa obsessão inata de controlar o futuro, a saúde, a prosperidade, a família, as finanças. E às vezes vêm só da nossa estupidez, também inata, de não conseguirmos parar e entregar a quem quisermos aquilo que não queremos guardar só para nós.

Mesmo a tristeza da gente era mais bela
e além disso se via da janela
um cantinho de céu e o Redentor.

Vem todo este texto a propósito de eu ter pensado, antes de escrever, ligar a televisão. Eu nunca vejo televisão. Mas acabo por ver pelos ecos que me chegam, porque é suposto ver televisão. Para andarmos informados ou para outra coisa qualquer, como fingirmos que ali se resumem todas as causas dos males que nos atormentam os dias e a alma. O vírus. A Economia. O desemprego. A crise que se avizinha. A incerteza quanto ao futuro. As tricas. As aldrabices. A descrença. As opções. A incompetência dos que nos governam. As nacionalizações. Tudo coisas que aumentam e suportam a nossa tristeza. E nos dão legitimidade para nos enfurecermos, nos zangarmos e nos irritarmos.

A tempo, escolhi escrever. Não quero saber. Não quero embarcar no barco do desânimo e andar em lutas com tudo o que mexe, para ficar com o salva-vidas mais seguro. Não quero! Não é aí que está o futuro. Não é aí que está a vida simples e boa. Difícil, sim. Difícil para muitos, e nesta fase ainda mais. Mas sempre possível de tornar mais simples e, por isso, melhor. Essa vida está em todos os minutos que passam e podemos escolher, simplesmente, viver. No trabalho. No ginásio. No jardim. Nas conversas. Na praia. No sol e no mar. Nos outros. No AMOR!

Um dia, que pode ser ainda hoje, isto passa e vamos desta para melhor (acredito que sim). Quantos de nós já foram andando? Tantos. Seja onde for que estiverem, será com certeza um lugar mais simples, onde aposto que não há televisão.

É, meu amigo, só resta uma certeza,
é preciso acabar com essa tristeza
é preciso inventar de novo o Amor.

Ouçamos Vinicius e deixemos as más notícias no ar. Mas longe, exactamente onde queremos que o vírus esteja. E agora vou passear, porque Verão é Verão e nunca em Julho estive entregue aos bichos.

 

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