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M A G i s

MAGIS: O mais, maior, mais alto, mais profundo. O que sou e o que posso vir a ser. O que me falta, o que me eleva e acrescenta. O sentido positivo de tudo o que me acontece. O que mais me aproxima da vida verdadeira. MAG is...

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27.02.20

Está tudo bem


MAG

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Photo by MAG

Vi-o apenas desta vez, mas lembro-me dele muitas outras, desde aí.

Não sei se é bom, se é mau, se é feliz, se é assim-assim ou se tem dias. Não sei se adora a família ou se a massacra, não sei se trabalha ou se tem muitos projectos pendentes e eternamente adiados, não lhe ouvi a voz suave ou áspera, não imagino que histórias terá para contar, não sei o sonho que o ajuda a levantar-se todas as manhãs, não lhe conheço a vida, os traumas, as entranhas, as esperanças, o indizível.

Gosto dele só pela imagem que tem.

A tranquilidade deste corpo feito bloco parece lembrar-me, sempre, que está tudo bem. Que o mundo nem sempre é bom, que as pessoas podem magoar-nos com coisas feias, que jamais compreenderemos o que move as almas atormentadas e os feitios azedos, que na verdade não controlamos nada, mas está tudo bem. Está tudo bem. 

Está tudo bem enquanto houver um banco de plástico e um dia de sol, e pudermos olhar para fora. Talvez lembremos numa suave nostalgia os que nos tiraram, e como ainda dói a falta que nos fazem e as saudades dos tempos em que nos sentávamos juntos só a estar. Mas não choraremos neste dia, porque isso foi ontem ou será de novo um dia destes. Agora, está tudo bem. Está tudo bem quando fumamos um cigarro apagado e achamos graça a quem passa com pressa no lugar de onde não queremos sair. Está tudo bem quando não reparam em nós porque não nos exaltamos, não gritamos, não perdemos o corpo-bloco à prova de tudo. Está tudo bem quando podemos juntar as mãos e agradecer.

Está tudo bem quando temos saúde e atravessamos a porta e montamos sozinhos o cenário e aproveitamos esta vida curta das coisas pequenas, que só durarão mais umas horas. Está tudo bem quando somos vítimas só em número, os pobres, os solitários, os subdesenvolvidos, os fumadores, os míopes. Está tudo bem quando não sabemos nada desses estatutos tristes. Mas, ao sol, invadidos pela doçura que só têm as almas felizes, rimos da malta toda, as verdadeiras vítimas do sistema, do inexplicável, do vazio, da sua imparável loucura. Está tudo bem quando a respiração profunda se instala e o manto da paz nos tapa inteiros, da cabeça aos pés.

Há dias em que me venho sentar ao lado dele.

Está tudo bem.

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