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M A G i s

MAGIS: O mais, maior, mais alto, mais profundo. O que sou e o que posso vir a ser. O que me falta, o que me eleva e acrescenta. O sentido positivo de tudo o que me acontece. O que mais me aproxima da vida verdadeira. MAG is...

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23.11.20

Há uma linha que separa os espectadores dos participantes


MAG

Esta novidade da pandemia também tem aquela célebre linha que separa, de um anúncio qualquer. Divide-nos claramente entre espectadores e participantes.

Todos os dias vemos números que se amontoam em quadros, mortos em dezenas de milhar, activos, total de casos, casos por 100 000 habitantes, testes por não sei quantos mais. Há muitos argumentos válidos. O mais válido, que morre e sempre morreu muita gente de outras doenças. De facto, o que tem a mais, mais uma? Vi uns gráficos muito elucidativos sobre as principais causas de morte em vários países do mundo. A Covid-19 só é das principais causas de morte em 2020, em países ocidentais, em países que contam casos. Em Moçambique, por exemplo, continua a ser a Sida o que mais mata. A Sida? A que distância estamos nós, portugueses, da Sida? Em Moçambique não morrerão pessoas de Covid-19? Se calhar não, e então o melhor é fugirmos todos para lá. Ou ninguém tem tempo de as contar? Pensando melhor, se calhar vamos ficando. Na China (a China!) as mortes por Covid são suplantadas por muitas outras. Mal aparecem nos mapas. Em Portugal, também. Estranhamente reparo no número de mortos por suicídio… assustador. Será sinal de subdesenvolvimento ou sinal de que nada está famoso? De todas as maneiras, há muita gente a morrer de repente, sem causa esperada e sem necessidade de internamento hospitalar. Temos muita pena, pontualmente, pessoalmente. Choramos essas mortes todos os meses, todos os anos. Não valem menos do que as mortes da pandemia, nenhuma morte vale pouco. Mas não estão lá, mortais como nós, à espera de vez.

E depois, a Economia.  Assistimos, incrédulos, ao afundar de empresas e mais empresas. Não há dinheiro. Não há condições, não há tempo a perder. Há medidas avulsas que parecem não servir a ninguém. Há injustiças, há aberrações. E há limitações de circulação e o Natal à porta, sem uma porta suficientemente larga para que entrem famílias inteiras, como antes. Pede-se contenção. Pede-se divisão. Pede-se respeito pelos direitos dos partidos políticos, e resguardo das 13 às 5 horas, nos dias em que estamos todos sequiosos de sol e mar e amigos e abraços. Tudo mal, tudo errado, mas tudo bem. Apesar de tudo, nesta fase estamos ainda todos do lado de lá.

Quando um dos nossos tem Covid e se vê atrapalhado com febre, com dores e com falta de ar, esqueçam lá os números e as restrições. Da cabeça não nos sai a ameaça do colapso, o tal que obrigará os menos necessários a ficar sem ar. Esqueçam tudo! Esqueçam circulações, restrições, incoerências continuadas e falta de vergonha na cara. Deixam de interessar pormenores, políticas e demagogias. Começamos a pensar no contacto privilegiado no hospital, começamos a memorizar 112 antes de dormir, começamos a ver Fátima como a viagem mais esperada dos próximos tempos. Isto mata! Como muitas outras coisas, é certo, mas mata. Uma grande maioria não sofre, mas para alguns isto é um pesadelo. E se o pesadelo acontecer a um dos nossos, é o fim do (nosso) mundo. É esta a altura em que passamos para o lado de lá. E assim, divididos pela linha da experiência própria, continuamos sem nos entendermos, porque uns falam de cenários, estatísticas e números, e outros, os que nos tratam, os que nos faltam, os que nos acompanham na incerteza, falam de pessoas, de vidas, de amor e de futuro.

Uma célebre blogger insiste que lhe roubaram a liberdade e que as máscaras na cara são o maior inferno que alguém quis inventar para nos massacrar. Zanga-se enquanto passeia por sítios paradisíacos, a carpir a sua falta de sorte por ter nascido uma pandemia quando ela precisava tanto de espairecer. Essa urgência do seu “eu”, que deveria interessar ao mundo inteiro. Lamento contrariá-la, mas não. Inferno será quando estiver numa UCI esgotada, a precisar do mesmo ar com que agora enche os pulmões para se auto-proclamar iluminada, e talvez, nessa altura, ninguém lho consiga emprestar. Inferno será quando percebermos que o nosso umbigo é redondo, mas cabe numa mão, e que uma mão não chega para mudar o cenário de muitas pessoas actualmente, que pode ser o nosso daqui a uns dias. “Ah mas temos de viver cada minuto, temos de nos revoltar contra quem nos quer limitar, temos de ser rebeldes e diferentes e interessantes e outsiders de um flagelo que assola o mundo enquanto nós tiramos fotografias e as filtramos para servirem as redes sociais.” Ingenuidade. Filtros não curam a Covid-19, não tiram as dores, não ventilam corpos, não evitam nada. Palavras não multiplicam os médicos nem dão poderes especiais a todos os que na linha da frente tentam – tentam! – minimizar todas as dores. Não é um drama histérico que se está a gerar. É um drama real, que qualquer um de nós pode viver. Podemos passar directamente do pé na areia com #hashtagsmuitacool para uma maca num corredor de um hospital. Mas não, nós não, nós somos diferentes, nós é que percebemos disto, nós é que pensamos, nós é que sabemos viver. Ilusões! Nós só estamos ainda do outro lado da linha. Quando a passarmos, somos todos iguais, mortais, maricas, medrosos, em pânico de perdermos as peneiras e de vermos os nossos sofrer sem originalidade que lhes valha.

Que não percamos esta hipótese, sempre longínqua, de vista. Porque ela vai chegando, a uns e a outros, independentemente dos filtros que escolhemos e das baboseiras que dizemos. Somos nós que estamos em todas as UCI deste país. Velhos, novos, saudáveis, doentes, vivaços, molengões, originais ou carneiros, somos todos nós. Fomos ontem, incógnitos, somos hoje, mais próximos, seremos amanhã nós mesmos. E nessa altura, nenhum hashtag nos valerá se não tivermos um médico, uma equipa que trate de nós e um sítio para sobreviver.

 

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Photo by MAG

 

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