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M A G i s

MAGIS: O mais, maior, mais alto, mais profundo. O que sou e o que posso vir a ser. O que me falta, o que me eleva e acrescenta. O sentido positivo de tudo o que me acontece. O que mais me aproxima da vida verdadeira. MAG is...

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MAGIS: O mais, maior, mais alto, mais profundo. O que sou e o que posso vir a ser. O que me falta, o que me eleva e acrescenta. O sentido positivo de tudo o que me acontece. O que mais me aproxima da vida verdadeira. MAG is...

10.02.20

(Ir)relevâncias e assistências


MAG

Naquele dia, foi como se o mundo se tivesse esquecido de me pedir qualquer coisa. De repente, eu, sozinha. Todos os meus entregues uns aos outros, a diversões e a programas. Acordei já passava do meio-dia, sem remorsos, com a luz a inundar o quarto e o cheiro de Inverno a dizer que estava sol. Enquanto bebia o primeiro café da manhã comecei, lentamente, a ler o livro sugerido na véspera, entre assistências e golos, pais orgulhosos e mil promessas de Dolores alentejanas: 21 Lições para o Século XXI de Yuval Noah Harari.

Reparo que, na minha vida, muitos temas aparentemente dissonantes tendem a cruzar-se no mesmo tempo e no mesmo espaço. E, na verdade, acho muita graça a isso. Porque, por exemplo, na véspera, os miúdos jogavam futebol, chovia, e nós falávamos das coisas que ficaram por dizer de viva voz nos últimos anos, entre a profundidade partilhada e a atenção distraída ao movimento nos campos:

- Olha. Vai marcar golo.

- Não é ele.

- Mas era. E deu uma boa assistência.

Falávamos sobretudo, da vida de um e da vida do outro, e de como andamos ainda, passados tantos anos, à procura da praia onde nos havemos de demorar mais um bocado. Como na Ericeira, quando havia ainda tanto futuro pela frente mas pensávamos que o mundo ia acabar no dia seguinte. E do sentido disto tudo. De Deus. Dos deuses. Da transcendência. Da morte. Das saudades. Dos sítios. Dos encontros e dos desencontros. E da viola, que nos fazia falta para dizer o indizível. Como antes.

O livro foi-me prendendo e inquietando. Porquê este livro agora, quando a minha cabeça  já anda às voltas com tanta desinformação? Em 2018 a pessoa comum sente-se cada vez mais irrelevante, diz Harari. Fechei o livro a pensar nesta palavra: irrelevante. E não passei da primeira lição. Ainda antes de o autor mo revelar, já eu me sentia totalmente irrelevante entre o cortejo histórico de gente que fez tão grandes coisas, boas e más. Cada vez mais a leitura é adubo para a minha imaginação deambulante, que foge descontroladamente do sentido do texto e da vontade do autor.  Recusei-me a dar, naquela altura, a irrelevância como tragédia. Naquele dia era bom ser irrelevante. Como era irrelevante a escolha entre continuar a ler e tentar digerir o que tinha lido. E irrelevante o facto de ser o primeiro dia, em muitos, em que eu estava completamente sozinha.

Pensei ir dar um passeio de bicicleta. Mas não me estava a apetecer cruzar-me com famílias que ocupam ciclovias, passeios e estradas com indiscriminada determinação. Fico impaciente com a bicicleta a travar de metro a metro, até que a avozinha puxe o neto pela mão, e os dois se ponham de lado, em pose de enorme favor:

- 'Xa passar a senhora.

Ou anda só onde podes andar. Sou um bocado homem nestas coisas.

Escolhi fazer, desta vez, o percurso menos concorrido ou, como o título do livro que não li mas de que me lembro muitas vezes, o caminho menos percorrido. Abandonei a ideia da bicicleta, peguei no carro e fiz 13 km com as janelas abertas e a cantar sem voz. Parei o carro numa estação de combóios abandonada, em cujo interior ainda se insulta o mais famoso preso 44 do Estabelecimento Prisional de Évora, ao lado de inocentes declarações de amor, que provavelmente nunca foram vistas por quem interessava. Tudo deserto. Mas o verde do campo chamou mais alto do que o medo de me aventurar sozinha ou de ver um rato sem ter um colo para onde fugir.

E fui.

Em 10 km vi menos pessoas do que animais, e menos animais do que os dedos das minhas mãos. De tanto andarmos atrás de lugares prováveis, podemos morrer sem conhecer o que cresce e se embeleza toda a vida ao nosso lado. E aquele caminho é, de facto, tão bonito como muitas outras maravilhas onde levei horas de viagem a chegar. À medida que me ia afastando da estação e adentrando o desconhecido, fui - exactamente como nas peregrinações - deixando cair a inquietação. Andar sem destino é um exercício de paciência e um teste à minha capacidade de continuar disponível para a surpresa.

Ainda que a desinformação seja muita e a irrelevância inevitável, há muitos mundos capazes de me devolver a respiração profunda e a promessa de sentido para tudo o que não consigo explicar. Há, apesar de tudo, muitos mundos capazes de me maravilhar, como quando era pequena e, de mão dada com o avô,  atravessava a mata para chegar ao mar. 

No meio do nada, nos rasgos do imenso céu azul, no cheiro da terra molhada, no ar frio a bater-me na cara, no sol a salpicar de reflexos o verde do campo e das árvores, no manto de flores silvestres a cobrir as colinas, no som tranquilo dos meus passos, o resumo de tudo o que me pode interessar. E tempo. Tempo para pensar nos meus, para Lhe e me pedir que não lhes falte, que não lhes falhe, que não deixe que deixem de acreditar nestes mundos, leves, grandes, redentores. Tempo para rezar pelos que sofrem e não conseguem ainda ver tanta luz. Tempo pelos amigos, um passo por este, um sorriso por outro com quem já cruzei outros caminhos, memórias de tantos e de tantos dias bons. Tempo para olhar bem de frente para o Futuro, que imagino mesmo bom. Tempo para ouvir Deus, para ter a certeza de não estar a caminhar sozinha, para me comover com tantos sinais da sua presença ali e na minha vida. Tempo para agradecer. 

E, depois, tempo para voltar. Sã e salva, recuperada, retemperada e renovada. 

Venha o Harari e as 21 lições. Estou preparada. 

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