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M A G i s

MAGIS: O mais, maior, mais alto, mais profundo. O que sou e o que posso vir a ser. O que me falta, o que me eleva e acrescenta. O sentido positivo de tudo o que me acontece. O que mais me aproxima da vida verdadeira. MAG is...

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MAGIS: O mais, maior, mais alto, mais profundo. O que sou e o que posso vir a ser. O que me falta, o que me eleva e acrescenta. O sentido positivo de tudo o que me acontece. O que mais me aproxima da vida verdadeira. MAG is...

09.04.20

O isolamento que nos junta


MAG

Tenho trabalhado ainda mais do que antes, mas não digo isto para me queixar ou fazer de vítima. Todos os dias agradeço ter trabalho, e ter um trabalho que me põe em contacto com universos muito distintos do meu, o que me dá a oportunidade de ver a mesma coisa de muitas perspectivas diferentes.

Nesta época em que somos diariamente confrontados com a ordem geral para ficar em casa, quem não fica em casa - simplesmente porque não pode ficar em casa - acaba por fazer casa do fora de casa. Há uma necessidade implícita de segurança, de nos segurarmos, de nos segurarmos uns aos outros. Somos poucos, já ficaram em casa aqueles que queremos proteger (e que sabemos que por vontade deles estariam ali), já ficaram em casa os que não têm com quem deixar os filhos pequenos (que queremos ver seguros, também), e sobrámos nós. Que, sendo poucos, vemo-nos mais e melhor. Fisicamente distantes, sem as muletas dos beijinhos e dos apertos de mão, mas inexplicavelmente mais focados uns nos outros, mais atentos, mais ali.

Somos aqueles que, durante um tempo, ninguém percebeu porque não estávamos em casa. Fomos rebeldes, chicos espertos, fora da lei. Até se perceber que na verdade ninguém nunca nos mandou para casa. Porque não representávamos um risco tão grande quanto outros, porque não fazíamos atendimento ao público, porque a economia não podia morrer… e, sobretudo, porque de não ficarmos em casa dependia – e depende – não só a vida da nossa família como as de muitas outras.

Mas quem aqui se encontrou, neste vago espaço de passagem entre o isolamento total e os hospitais, os supermercados, as forças de segurança e as agências funerárias, está tranquilo. Um pouco apreensivo quanto à (in)compreensão pública da sua missão. Mais circunspecto e fechado ao princípio, mais apaziguado à medida que os dias passam, mais leve ao compasso da tomada de consciência de que somos poucos, mas não estamos sozinhos. Nasce uma cumplicidade inexplicável entre quem se encontra fora do baralho, num tempo de arrumação.

Hoje, como todos os dias, estive nas “minhas” obras. Aproxima-se a Páscoa, e ousamos viver o espírito de sempre, dos outros anos: está quase a chegar a festa! Em cima dos telhados ou no meio dos estaleiros, partilham-se programas e medos:

- Agora uns diazinhos para descansar. Vamos lá a ver se me deixam passar para casa, que eu tenho de mudar de concelho.

- Desta vez é que eu vou fazer exercício físico, vai ver.

- Eu cá já sei que não vou conseguir acordar mais tarde. A gente habitua-se às horas de acordar e depois é um problema. E agora ainda mais, parece que isto não ajuda. 

- Não sei se me aguento estes dias em casa. Nem que vá jardinar, parado não fico!

- Vou ler e ver filmes.

- Não vou fazer nada, nada de nada.

E depois há sempre alguém que ri a imaginar a cena improvável de quem chega às férias, despe o colete e o capacete e se põe de imediato a ler e a ver filmes ou a jardinar durante três dias. Talvez de máscara, tal é a memória da urgência de nos protegermos do desconhecido.

E há a despedida, de repente plena de um sentido que não existia:

- Até amanhã, se Deus quiser.

- Olhe, se já não nos virmos, Boa Páscoa e que a gente volte todos bem, depois.

Todos bem, todos e tão poucos, exactamente como antes.

- Então o que vai ter para a sua Páscoa, arquitecta?

A boa porta bateram, mas não me desfaço:

- Um borrego assado espectacular.

- Ah, um borreguinho… é cozinheira.

- Esta cobertura está a ficar linda. Mas também me apetece ver a outra, que é mais complicada.

Deixá-los sonhar que além de acompanhar obras, também cozinho um borrego espectacular. De um dos restaurantes mais espectaculares do mundo.

Há quase um mês que andamos nisto. Aligeiram-se as fronteiras por vários bens comuns: o primeiro, levar as obras a bom porto, apesar de todos os planos de contingência e de todas as dificuldades. Mas depois, muitos outros: serenar os ânimos, acalmar os medos, imprimir esperança, motivar, partilhar, não deixar que a solidão se instale… e não se instala mesmo, sente-se isso em cada centímetro quadrado de trabalho conjunto. Se chego e a porta está fechada, bato à porta, quero entrar. Quero dizer BOM DIA. Quero saber como está a correr, o que se passa, o que faz falta, o que se segue, o que está feito, o que se conseguiu. Quero que saibam que fui e não fiquei em tele-obra, a comandar à distância. Que vou de manhã, que vou à tarde, que vou o tempo que for preciso, que estamos juntos, e que depois volto para os bastidores, onde também faço falta. Como eles.

Há uma atmosfera diferente, especial. São pessoas, são histórias, são vidas juntas, fora de casa. Talvez não seja fácil ver muita poesia nisto. Mas sinto que é o nosso caminho da cruz, tornado leve e bonito por esta união nos tempos de crise. Não só aqui, mas é aqui que tenho vivido mais.

E agora que se aproxima a Páscoa, também eu vou poder ficar em casa mais tempo, também eu vou poder ser dos meus filhos mais tempo, também eu vou poder acompanhar Jesus no seu caminho até à cruz, e comemorar a sua Ressurreição e a sua presença viva, que testemunho todos os dias.

Agora é tempo de parar e aproveitar a quarentena. De prometer ler, ver filmes, fazer bolos, escrever, jogar ao STOP, à forca e às cartas, e provavelmente não fazer nada disso. De dar abraços demorados, de nos deitarmos no sofá, de ver como crescem as plantas, de marcar golos, de rir ainda mais. De nos vestirmos para a festa, de esconder ovos, de trazer para esta mesa coisas que esta mesa nunca viu (porque será a primeira Páscoa em casa, em muito anos, só nós).

É tempo de rezar: por todos os que nestes tempos sofrem; pelos que partem e pelos que vêem partir, sem poder sequer acompanhar; por todos os que estão na linha da frente e sofrem também, com o tanto que o mundo lhes exige, com o fracasso, com a impotência, com o cansaço; por aqueles para quem o futuro é ainda demasiado incerto.  

É tempo de agradecer: pelos doentes que se curaram; pelos meus amigos que ficaram bem, e pelos que estão ainda a recuperar; pelos que conheci melhor neste tempo improvável, e já fazem parte dos meus dias; pelos telefonemas que fiz e pelos que recebi; por esta força e por este optimismo que não me abandonam; pelos meus pais, que estão seguros e protegidos, com a ajuda dos meus irmãos e de outros corações disponíveis, e por tudo o que isso faz atenuar as saudades... tantas, tantas; pela minha família, que está saudável e que me continua a fazer rir todos os dias; pelos meus filhos, que são o meu porto mais seguro, apesar das migalhas e dos gritos e de ainda não termos atinado com horários e rotinas e coisas de gente mais acertada; e por todos os outros portos seguros e discretos, que me amparam em todos os tempos, de dificuldades e de alegrias.

Vai ser bom. É mais um “parar para avançar” que a vida me dá. E os meus gráficos caseiros vão alimentando a esperança de faltar pouco para todos os abraços adiados e para todas as festas que vamos juntar, depois, porque o tempo não vai chegar. Vamos vivendo, um dia de cada vez, como já não estávamos habituados a fazer. Parece tudo complicado e tudo muito simples, também.

Para a semana, voltarei a por o colete e o capacete e a voltar para casa feliz. Apesar de tudo. Se Deus quiser.

 

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Photos by MAG

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