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M A G i s

MAGIS: O mais, maior, mais alto, mais profundo. O que sou e o que posso vir a ser. O que me falta, o que me eleva e acrescenta. O sentido positivo de tudo o que me acontece. O que mais me aproxima da vida verdadeira. MAG is...

M A G i s

MAGIS: O mais, maior, mais alto, mais profundo. O que sou e o que posso vir a ser. O que me falta, o que me eleva e acrescenta. O sentido positivo de tudo o que me acontece. O que mais me aproxima da vida verdadeira. MAG is...

13.07.21

Olhar para a frente voltando atrás


MAG

Gosto, cada vez mais, de ouvir as experiências sobre os caminhos que cada um vai percorrendo. Oiço, fico a pensar nas maravilhas que temperam algumas vidas, e a agradecer por poder fazer delas uma inspiração. Uma coisa que a idade me tem trazido é a noção de que, quanto mais velhos somos, mais se acentuam as diferenças entre as atitudes e as histórias que cada um tem para contar. Há vidas cheias de viagens externas e internas, avanços, recuos, experiências e descobertas. E há também vidas muito desinteressantes, com pouco ânimo e pouca novidade, vidas em permanente standby de coisa nenhuma.

No chamado meio da vida encontro claramente dois grupos de pessoas: os que já arrumaram as botas, mais ou menos sossegados e conformados, mas raramente felizes com a vida possível,  a vida sofrível, a vida que “é o que é”, mesmo que seja pouco; e os que continuam em viagem, vivendo atentos e permeáveis às surpresas e aos desafios, caindo infinitas vezes mais do que os primeiros, mas chegando também a lugares onde aqueles não se atrevem a ir e provavelmente não imaginarão sequer que existem.

São atitudes distintas e, questionando-me sobre a génese desta distinção, o medo aparece como a mais provável causa de paragens forçadas ou de arranques arriscados. Há quem tenha medo de mudar, porque mudar implica sempre, inevitavelmente, perder qualquer coisa. E raramente estamos preparados para perder o que quer que seja, para adentrarmos o desconhecido. O medo, nestes casos, paralisa. Mas há também quem tenha medo de deixar que a vida arrefeça de tal forma que já não seja possível recuperar o sentido, depois. Nestes casos, o medo impulsiona.

É na chegada ao tempo quase simbólico do meio da vida que mais questionamos o sentido da nossa existência. É aí, nessa exacta fase em que olhamos para a nascente do rio com alguma nostalgia, e para a foz com algum temor, que o medo se avoluma e se revela travão ou mola das nossas escolhas. Pressentindo o aproximar do fim do caminho, assaltam-nos inquietações, dúvidas sobre o que já vivemos e o que queremos ainda viver. Sobretudo sobre a qualidade da nossa vida, sobre o alinhamento dos sonhos que tivemos com a realidade que nos calhou viver. Raramente os dois universos coincidem em absoluto. Mas existem (ou não) pontos de aproximação. Podemos sentir: “Do que sonhei nada se concretizou, mas só por acaso, por desconhecimento ou por falta de imaginação não sonhei a vida que tenho”. Ou, pelo contrário, “Não, não era mesmo nada disto o que eu gostava que tivesse sido”… e tantas, tantas vezes não é.

Um dia, num programa espiritual, foi-nos pedido que escrevêssemos num papel os sonhos e planos de quando tínhamos vinte anos. Depois, que olhássemos para cada um, e nos perguntássemos quanto a nossa vida se afastou daquilo. E, por fim, que estivéssemos atentos à reacção interior que se desencadeava com esse olhar. A minha conclusão, baseada na minha experiência e na de outros – nunca mais a esqueci – foi esta:

Há sonhos cuja não concretização é tranquila. Não fazem mais sentido do que os desejos que se pediam com uma pestana entre os dedos, nos recreios do liceu. Eram reflexos da nossa imaturidade, do exagero próprio da idade, da falta de noção. Foram substituídos por realidades igualmente estimulantes, porventura mais terrenas, mas tão ou mais significantes do que os delírios juvenis. Mas há outros sonhos que nos angustiam, quando revisitados. Que nos gritam com uma voz inesperadamente forte e que quase nos envergonham.

Voltar aos vinte anos pode lembrar-nos o que achávamos que seríamos capazes de ser e – muitas vezes por medo - não fomos. Aí radica a parte mais complicada do desalinhamento. Aí radicam, provavelmente, as nossas maiores frustrações e carências. Mas aí se esconde também, à nossa espera, o derradeiro desafio a vencer o medo e a deixarmo-nos conduzir pela confiança. Porque essa viagem ao Passado, mais do que desenterrar sonhos abstractos e imaturos, ajuda-nos a reencontrar o fio do essencial, o fio do que queríamos ter sido e, no fundo, ainda continuamos a querer. O Passado que não perdeu a validade diz-nos muito sobre a direcção do Futuro, se deixarmos. Se nos deixarmos inquietar, desinstalar, largar a sensação de domínio que temos sobre o pássaro fechado na nossa mão. Mesmo com medo, mesmo com a vida feita de cansaços, desilusões e desencontros, e o fim da linha cada vez mais perto.

Assim, quando chegamos ao meio da vida, o que importa analisar e dissecar não é tudo aquilo que não se concretizou, pois isso seria vivermos agarrados a idealizações tontas. O que importa perceber é, dentro do que não se concretizou, o que continua agora, muitos anos passados, a ser essencial (e, porque ausente, a causar angústia).

Que reacções nos causa a consciência do desalinhamento entre sonhos e realidade, entre Passado e Presente? Tristeza, desânimo, desilusão com os caminhos que escolhemos? Ou desejo de reacender a esperança e tentar, ainda, chegar lá? Arrumamos os sonhos tranquilamente, sem inquietação? Fechamo-los a sete chaves para não termos tentações de lá voltar, porque isso nos consome e nos lembra aquilo em que nos tornámos e que suspeitamos não poder jamais ser transformado? Ou redescobrimos o ânimo que nos imprimiam e queremos recuperá-lo? Aceitamos agradecidos  o curso que a nossa vida tomou? Forçamo-nos a aceitá-lo para apaziguar o medo de ter, ainda, de lutar? Ou somos ainda, e apesar de tudo, capazes de o questionar?

O que é que tudo isto nos diz sobre nós, neste momento? Somos da equipa das sopas e descanso ou da das botas e da mochila às costas? Estamos agarrados à vida por um ventilador de medo e seguranças vazias ou sentimos vida em nós a latejar? É que - dizem - o caminho faz-se caminhando. E não consta que se caminhe grande coisa no sofá, à espera do tal dia em que vai acontecer aquela coisa que dará um sentido qualquer a tudo o que é tão chato. 

O nosso verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar de inteligência sobre nós próprios.

Marguerite Yourcenar