Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

M A G i s

MAGIS: O mais, maior, mais alto, mais profundo. O que sou e o que posso vir a ser. O que me falta, o que me eleva e acrescenta. O sentido positivo de tudo o que me acontece. O que mais me aproxima da vida verdadeira. MAG is...

M A G i s

MAGIS: O mais, maior, mais alto, mais profundo. O que sou e o que posso vir a ser. O que me falta, o que me eleva e acrescenta. O sentido positivo de tudo o que me acontece. O que mais me aproxima da vida verdadeira. MAG is...

09.01.21

Onde anda a esperança, que é a última a morrer?


MAG

Dizem-me que ando feliz.

Acho que é verdade. É verdade que tenho muitas razões para isso, e que quase todas têm nomes com letras maiúsculas, que gosto de repetir. É verdade que tenho poucas pedras nos sapatos, o que me deixa caminhar decidida e alegre, sobre a estrada por onde vou. É verdade que tenho muitas responsabilidades, mas também muitas alegrias que me chegam por via das responsabilidades que tenho. E é verdade que tenho, a temperar o lado adulto, muitos momentos em que volto a ter 15 anos e a achar que o Futuro não tem fim, e que lá mais para a frente hão-de estar ainda mais coisas boas à minha espera. Mesmo que, no fundo, saiba - ou tema - que talvez não. Ou talvez por isso mesmo. Talvez para contrariar a pré-ocupação do espírito adulto e consciente, dê à adolescente tanto tempo de antena. Estratégias. O medo de sofrer nunca me aconselhou da melhor maneira.

Não estive sempre feliz. Não estou sempre feliz. Mas interessa-me mais o pano de fundo do que a cena concreta que se apresenta em palco. A abstracção. A rede que me sustenta. A graça que recebo todos os dias. A graça que tudo isto tem: eu, de repente, crescida mas não tanto, e o mundo a levar-me a sério, e eu a tropeçar em problemas e a fingir que não os vejo, e a antever desgraças sem os óculos de que preciso desde há muitos anos, para focar, perceber, preparar-me... eu a fugir de tudo isso como o diabo da cruz, porque os meus hão-de morrer, eu hei-de morrer, havemos todos de sofrer um dia, ninguém sabe quando, mas não precisa de ser já. Para já é só isto, a mesma família de sempre (uns mais perto de mim, outros mais perto do céu), três filhos, uma cadela, uma casa para cuidar, um trabalho para fazer, um carro para guiar, um despertador 30 minutos no Snooze para me irritar, um fogão para tentar passar ao lado e não conseguir, e muito, muito Amor para dar e receber.

Não é preciso assim muito para ser feliz. Mas é preciso ser feliz também - e sobretudo - quando não se está feliz. Tive a imensa sorte de isto me ter sido ensinado desde cedo, e a rara sorte de isto me ter sido ensinado pelo exemplo: a verdadeira felicidade não é um estado, é uma vocação. Não é a ausência de obstáculos, de vírus e de confinamentos, de problemas de saúde, financeiros, jurídicos, de relação, de emoção, de cansaço... não é a ausência de medo, também. Talvez seja a esperança inabalável. Nas pessoas, na vida, num mundo melhor que não sabemos bem quando e onde descobriremos, e que talvez seja exactamente o que tememos. A esperança inabalável de tudo afinal ter um sentido. A esperança de lá chegarmos desempoeirados e limpos de dramas existenciais desnecessários. Mas para carregar essa esperança inabalável, é preciso colhê-la nas pequenas coisas, é preciso deixar que ela se mostre, é preciso esperar que apareça no meio do nevoeiro, é preciso perceber que é feita de simplicidade e discrição. É preciso compreendê-la, para que não desista de nós e não nos deixe entregues à evidência, tantas vezes sombria e triste, do que nos calha viver.

Talvez seja a esperança o Deus das pequenas coisas de que fala o livro. Da neve que cai no Alentejo, mesmo que muitos não a consigam ver, pequena e pouca. Do chá de maçã e canela, que aquece. Dos risos por nada. Dos abraços. Dos cheiros conhecidos. Da Natureza em constante transformação. Dos portos seguros. Das alternativas para tudo. Das parvoíces. Do pano de fundo. Da rede. Da paz.

Acho que ando feliz, sim.

 

137587311_473613887367914_7375309326672815531_n.jp