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M A G i s

MAGIS: O mais, maior, mais alto, mais profundo. O que sou e o que posso vir a ser. O que me falta, o que me eleva e acrescenta. O sentido positivo de tudo o que me acontece. O que mais me aproxima da vida verdadeira. MAG is...

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24.09.19

Personagens-tipo: o antipático


MAG

Existem tipos de pessoas sobre os quais me dá gozo pensar, pelo mistério que encerram as vidas que levam e as coisas que fazem. São personagens-tipo que cruzam os meus dias. Provavelmente todos temos um pouco de uma, de outra ou de todas. Começo hoje a explorar esses mundos e os seus traços peculiares, com uma personagem-tipo intrigante, porque nunca se percebe bem o objectivo que a move: o antipático, o arrogante mal-humorado, que tem a mania que é superior.

Este é o tipo das pessoas que parecem querer anunciar que toda a gente lhes deve e ninguém lhes paga, como se diz lá por casa [reparei agora que tenho esta mania de chamar casa a todas as minhas raízes]. Ou porque são altos, ou porque são magros, ou porque são giros, ou porque não são nada disto, mas acham que têm qualquer coisa muito especial que os eleva e na qual, normalmente, mais ninguém repara.

Chegam altivos, a atravessar uma passerelle imaginária cheia de glamour inexistente. Baixam os cantos da boca, cerram os dentes, reviram os olhos. Fingem não reparar que o povo não se amontoa para os ver passar. Fazem de conta que existem legiões de fanáticos descabelados a implorar por um sorriso seu, mas são incapazes de corresponder porque não acham graça a nada. Raramente tomam a iniciativa de falar a alguém que não lhes possa servir para alguma coisa. Quando muito, condescendem em estender a cara para serem beijados,  desde que os outros se contentem com um ou dois encontrões dos maxilares silenciosos (não há sensação mais ridícula do que dar um  beijinho a alguém e não ouvir um único som do outro lado). Depois destes enormes sacrifícios, voltam a sair altivos e enjoados, como se tivessem imensos programas interessantes pendentes e o seu tempo valesse mais do que a soma dos minutos de toda a gente. E, pronto, por mais que tente desenvolver, a história não passa disto. Assim vivem, como eternos credores do mundo. Que giro que deve ser.

Há uma antipatia diferente, que radica na timidez ou na distracção, e que facilmente é desmontada e desculpada depois de conhecermos melhor as pessoas, e de percebermos que na verdade não querem ser antipáticas, mas estão a tentar encontrar um caminho confortável para chegar ao outro. Não me espanta nada que muitos me considerem antipática, mas também sei que aqueles que se tornam meus amigos me dão o benefício de ser às vezes uma destas antipáticas passageiras, que não fala porque vai na lua ou porque é pitosga, ou porque precisa de algum tempo para se aproximar de tudo o que não conhece bem.

A verdadeira antipatia - digo eu, com a autoridade empírica do que tenho observado e, por isso, com toda a subjectividade - radica quase sempre num complexo de inferioridade ou numa infelicidade crónica. Quanto as pessoas empinam o nariz, não conseguem olhar para dentro. É fisicamente difícil e espiritualmente impossível. Uma pessoa que escolhe apresentar-se ao mundo sem um sorriso, ou com um sorriso amarelo, para além de ter uma falha óbvia de educação, tem de ser uma pessoa traumatizada, complexada, mal resolvida. E tem de ser uma pessoa tão centrada em si que não pode imaginar que os outros, com a sua leveza e graça, a podem contagiar e ajudar no que corre menos bem.

Na ilusão da auto-suficiência, esta espécie parece ter passado em pose até por Tom Jobim. Uma pena, porque ficou sem saber que fundamental é mesmo o amor é impossível ser feliz sozinho. Muito menos descobriu que não estar sozinho é muito mais do que ter família, amigos e conhecidos. Não estar sozinho é não ser estanque. Ser estanque num corpo cheio de uma superioridade auto-proclamada, é o fim.

Mesmo quando toda a gente nos deve e ninguém nos paga, ou quando temos uma vida realmente difícil, se formos bem intencionados e quisermos ser felizes, arranjamos sempre forma de entregar ao mundo uma versão positiva do nosso caos interior. Apresentamos o que somos, as nossas fragilidades e as nossas falhas, abrimos o jogo. Com uma dose natural de humildade e simpatia, apagamos o azedume e a revolta que poderiam surgir. E nunca ficamos a perder nestas contas. O mundo devolve-nos sempre o reflexo daquilo que conseguimos ser.

Confesso que há um lado meu que tem pena destes seres antipáticos que se imaginam superiores ao comum dos mortais. Mas a minha costela existencialista faz-me arrumá-los no canto dos invisíveis, para onde envio mentalmente aqueles que não me apetece ver. A antipatia é uma escolha, e quem a escolhe que se ature sozinho. Para além disso, um ser antipático é esteticamente desagradável. E se calhar por ser  pitosga, sou sempre mais atraída pelas  vistas mais bonitas. 

 

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Photo by Andrew Brigmond on FREEIMAGES