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M A G i s

MAGIS: O mais, maior, mais alto, mais profundo. O que sou e o que posso vir a ser. O que me falta, o que me eleva e acrescenta. O sentido positivo de tudo o que me acontece. O que mais me aproxima da vida verdadeira. MAG is...

M A G i s

MAGIS: O mais, maior, mais alto, mais profundo. O que sou e o que posso vir a ser. O que me falta, o que me eleva e acrescenta. O sentido positivo de tudo o que me acontece. O que mais me aproxima da vida verdadeira. MAG is...

14.10.20

T.E.M.P.O.


MAG

Damos muitos abraços. Todos os dias. Tambėm andamos de mãos dadas, damos muitos beijinhos e fazemos festas mútuas na cara e no cabelo. Em todas as despedidas e reencontros, nos cruzamentos súbitos entre a cozinha e a sala, enquanto pomos um pé a experimentar a água fria na praia, na toalha, na areia depois dos banhos de mar, sentados no sofá ao fim do dia, e sempre, todos os dias, quando ele se deita e grita lá de cima

- Mãããeee, já pode vir!

E eu interrompo o telefonema, a mensagem, a arrumação da cozinha, o livro, e corro escadas acima, levando o peso de um dia inteiro em cada perna, mas urgente é que durma, que sossegue, que descanse, e lá vou eu com o fato de mãe bombeira, por esta ordem, dar destino às roupas esquecidas no chão antes do banho, refilar

- Mas as outras eu arrumei...

- Sim, mas ficam sempre umas para eu fazer mais uma ginasticazinha, porque hoje ainda fiz pouco...

- Pois.

fechar  a luz, embrulhá-lo nos lençóis e no cheiro ainda a bebé, pedir que na manhã seguinte seja querido e colaborante, desejar sonhos azuis como o céu e o mar, dar beijinhos e abracinhos e avisar que agora tenho de ir, porque há sempre qualquer pendente urgente latente, expoente de uma coisa qualquer, que nunca sei bem explicar. Muito menos a estes oito anos de ingenuidade.

Agora, andava há uns dias meio choroso. O suficiente para ontem me fazer parar para o observar. Desvalorizo sempre, até que há um dia em que soa o sino do sexto sentido, tantas vezes adormecido por cansaços e distracções. Tem sono, pensei. Anda mal dormido. No fim-de-semana deitou-se mais tarde, ainda não recuperou.

- Hoje vamos para a cama cedo.

Vamos. Gosto de me unir a eles nos deveres e nas desgraças, se bem que para mim seria um sonho poder também agir no plural.

Choro, outra vez. Nunca quer. Nunca queremos nada que nos vendem como paraíso a dois e resulta numa caminhada solitária. Subiu as escadas como condenado, pés a arrastar, suspiros a cair na parede, no degrau, no corrimão, na casa de banho, no lavatório, um fio de água a correr e eu a ouvir a escova a passar lentamente pelos dentes desanimados, a adiar o fim do dia.

Senti-o entrar no quarto, atirar-se para cima da cama, suspirar de novo e apagar a luz, tudo sem chamar por mim. O sino tocou de novo e subi também. Deitei-me ao lado dele e - como antes, quando era pequenino e não fazia mal ser pequenino - comecei a contar uma história inventada por mim:

- Era uma vez uma mãe que tinha três filhos. Às vezes, a mãe não percebia porque é que os filhos estavam tristes, e ficava a pensar no que teriam... perguntava-lhes, mas eles também não sabiam dizer. Então a mãe pensava que se calhar tinham fome, ou sono, ou cansaço, ou que se tinham zangado com um amigo, ou que não estavam a gostar muito da escola, ou que lhes doía o segundo dedo do pé, ou que tinham os sapatos apertados, ou que estavam a brincar e era tudo a fingir... mas continuava sem ter a certeza de nada. A mãe só tinha a certeza de duas coisas: uma era que a mãe gostava MUITO de todos os filhos; e a outra era que os filhos gostavam MUITO da mãe...

À medida que ia ouvindo, ia procurando os meus braços para se aninhar. Senti a respiração acalmar e as mãos ficarem mais redondas e mais quentes, à procura das minhas. Estava a gostar, talvez não da história (que provavelmente nem estaria a ouvir), mas da minha voz próxima, a encher o fim do dia e a hora de dormir. 

- ... e por causa dos filhos, a mãe lembrava-se de quando era pequenina e às vezes estava triste sem saber porquê... e de como tinha saudades do tempo em que os crescidos achavam que tinha sono, que estava cansada e que precisava de ir dormir mais cedo... e depois tapavam-na, davam muitos beijinhos e abraços, contavam uma história...

E de repente a história ja não era história, a dúvida já não era dúvida, a resposta estava ali, chapada, reluzente no escuro, eu pequena sem perceber, ele pequeno sem perceber, os dois no mesmo barco e na mesma tristeza, era isto, era só isto, era tão pouco, era só tempo sem urgentes pendentes latentes à espera no andar de baixo...

Abracei-o muito, muito tempo, com festas no cabelo e silêncio e as duas respirações calmas e juntas, como só tem quem se vai mesmo deitar ao mesmo tempo. E por fim, a estragar toda a alegria da minha descoberta... novo choro! 

- O que foi, querido?!

- É que a mãe já não me dava um abraço destes há muito tempo... e eu gosto muito...

E eu também. E eu também! Entre o choro e o abraço ainda preso, percebo, finalmente, tudo. Passamos a vida aos beijinhos e aos abraços, a dar a mão e a fazer festas um ao outro. Mas talvez muitos gestos rápidos somados não tenham, para nenhum de nós, o poder de um abraço demorado, o poder da paz que podemos oferecer um ao outro em cada dia, o poder da permanência para além do equilíbrio das coisas pequenas, que nunca alimentará mais do que as nossas certezas. Tempo. O mesmo tempo que é preciso para uma planta crescer, para um amor se tornar sólido, para uma obra ganhar forma, para um negócio ter lucros, para um mistério se desvendar, para uma decisão ser tomada. O tempo das coisas complicadas, que tendemos a roubar às coisas simples. Daqui a pouco, quando puder ser, quando acabar, se não demorar muito... e já passou.

Ontem ele lembrou-me que tempo é tempo, e que é o tempo do abraço que tem de fazer esperar o resto. Sonhei com o azul do céu e do mar. Como antes. Como ele. Hoje acordámos os dois com cara de Verão.

 

2016-06-04-ÉVORA-EU E NUNO (MÃOS).JPG

Photo by MAG

 

 

 

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